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sábado, 31 de maio de 2014

As libélulas no banheiro

Todos os sintomas que a cardiologia não consegue ver;
um milhão de batimentos cardíacos por minuto;
um milhão de pensamentos por segundo
que nem todas as psicologias juntas poderiam resolver.
Oh, baby, as paredes estão derretendo novamente?
Seu coração é uma guerra fria,
e você está na linha de frente.

Pálida blue, estás contente?
Quanto tempo seus dias de Wonderland irão durar?
Os filósofos de mesa de bar,
poetas de embalagem de cigarro,
escritores de fundo de gaveta,
a repetição da poesia já feita, os versos gastos pelo tempo
sujos das ruas, de bebida e de beleza.
As gotas de chuva nos faróis das ruas
lembrando o que queremos esquecer.
Parece muito clichê?
Parece muito clichê.

E agora estás a sorrir e parece até querer dançar,
mas quanto tempo irá levar
até que fiques aos prantos novamente
a respeito da beleza do mundo que supões ter-se esvaecido,
chorando a respeito de tudo ser,
segundo sua loucura ou sanidade deformada,
falso, frágil, rápido demais,
sujo ou doentio.
E quanto tempo até a queda?
Quanto tempo a esquizóide?
Resquícios de um transtorno paranóide
cravados na sua pele para que todos possam ver.

Quanto tempo até que as paredes derretam novamente?
As libélulas no banheiro,
ratos, baratas e rãs.
Você implorando para que tudo acabe.
As bruxas dos sonhos e os rituais
graves e pesados como as marcas bestiais
em suas costelas ao amanhecer.
O olhar fixo no canto dos cômodos,
as manchas de mofo ganhando voz.

Quanto tempo até você repetir
"o vazio que eu sinto dá para encher uma cidade inteira de fantasmas"
e eu implorando pra que paremos de falar em metáforas
porque, baby, sua alma já era suficientemente complicada para mim de entender.

E era nela o que encantava,
a sensibilidade, a falta do fluxo de normalidade,
o sofrer pelo improvável, vaguear por atmosferas ditas insondáveis
por aqueles sortudos de natureza tranquila.
E era em vão que lhe dissesse:
blue, não te tortures com esses pensamentos!
Torturar-se era de sua natureza, 
e de natureza não se pode fugir,
foi o que li em algum lugar.

E era o que nela encantava
e tudo nela era real.
As asas do espírito a sobrevoar todos os cantos 
de uma psique inalcançável 
imersa em sonho e fantasia. 
E tudo nela, apesar da novela,
apesar do drama inesgotável,
da dor inventada, da arte forjada,
tudo nela era de um fogo 
e uma febre
e uma explosão real.

Mas se ria alto e se divertia, que mal fazia
se queria dançar.
Todas as bobas gotas de chuva nos faróis da rua lá fora.
Toda espera por um fim
a longa espera pelo nada
o Vazio da Existência
é algo com o que você pode lidar?

Baby, até chegar o dia do medo de atravessar a ponte,
o medo de que algo te empurre no rio
e te faça escorregar.
Melhor seria procurar de novo um médico,
voltar para as pílulas e remédios,
concertar a hipocondria,
controlar a agonia,
continuar a sorrir serelepe na mesa do bar?
Ou pedir por ajuda enquanto ainda consegue caminhar.

É bom te ver sorrir,
ainda que tua beleza se realce quando choras,
mas e quando o sol insistir pela manhã
e as crianças descerem do trem
as crianças em direção a escola
e você a observar
a gaiola da existência
como vai se sentir
quando você acordar
da ilusão de segurança
dos poetas de embalagem de cigarro
reunidos a filosofar
bêbados, alcoólatras, loucos, tuberculosos,
geniais,
na mesa do bar. 
Suas teorias de resolução, 
subir num ponto alto
e voar.

E quando voltar pra casa,
a chuva caindo lá fora,
o ar gelado em sua fronte,
os átomos pesando toneladas do peso das
lágrimas presas na alma
rodopiando em redemoinhos crescentes
quebrando-se com violência contra tua fronte
te fazendo deslizar
a chuva cortando teus lábios
a febre começando a brotar
um céu cinzento e suave
desejando não mais acordar.
Ecos ressoando ao longe em tuas dores de cabeça
que começam em testas molhadas
e percorrem pescoços em nódulos de inflamação
chegando aos ombros que carregam sozinhos
teu mundo caótico e sublime.
Tua faringe em chamas, pernas bambas,
corpo desfalecendo em braços e colos de ninguém
paz e força de esvaindo com a febre
o fogo e as paredes derretendo
as libélulas na banheira branca do banheiro
olhar fixo, o serpentear das águas
a loucura e a dúvida percorrendo as veias,
o medo de se deixar controlar
o cheiro de morte,
o pó,
as flores por todo o lugar.
Deixemos de falar em metáforas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Senta aí que eu queria te falar de como eu tenho tanto medo

Nunca há ninguém e isso é coisa com a qual, eu sei, já devia ter me acostumado há séculos. Mas quando todo mundo sai de perto, aí é certo, meu desespero. O vazio se acentua, a solidão me traz de volta o medo quase louco e quase cego de sair dos trilhos de uma vez. O medo de ficar sozinha em casa, que nem quando criança me assolava, agora me devora por inteiro, tremendo cada centímetro de minhas pernas curtinhas, cercadas por meus próprios braços. Não é medo do estranho, do bandido arrombar minhas janelas. Nem medo dos monstros embaixo da cama, dentro do guarda-roupa, do eco do barulho de pés no piso da sala, dos passos apontando pra o topo da escada... É medo de mim.

Senta aí que eu vou te dizer como você, moço bonito, que se preocupa tanto comigo, é a única sombra que tenho pra papear. Eu vou te dizer como estou só, e como me dói não ter ninguém além de mim pra ouvir o que eu tenho pra falar. Moço, eu perdi tudo, foi tudo embora, e comigo só ficou o medo de perder a lucidez que me resta também. O medo de me tornar alguém que não sei mais quem, alguém que desconheço. Moço, eu perdi tudo, e só me resta desamor por mim, no lugar do amor-próprio, que nem sei mais se era isso, ou se era apenas frieza. Indiferença de quem aprende a viver com pouco, de quem poda qualquer galhinho de qualquer plantinha que tenta trazer esperança. De amar e ser amada. E tudo é medo do amor, da vida, e de mim. É medo de que a planta, antes tão bela e inofensiva, se transforme numa carnívora, que vá comer meus próprios pés. E ela sempre cresce, e ela sempre come. Ela devora tudo, leva tudo embora, e é por isso também que não se deve confiar em ninguém.

Moço, não vai embora agora, fica e espera a hora em que eu vou sorrir de novo. Moço, me faz companhia, me dá um pedaço dessa tua alegria, só pra que eu possa continuar meus dias até alguma coisa acontecer. Moço, fica e segura minha mão, pois só me resta o chão, e o medo de enlouquecer, moço.

sábado, 27 de abril de 2013

Slipping away, parte 2

[...] Eu sou uma farsa, amor. Eu sou apenas a personificação dessa madrugada lenta, vazia e cheia de insônia. Eu sou essa cama gelada e essa saudade e esse buraco enorme no peito, desejando sua presença aqui mais do que qualquer outra coisa que minh'alma possa desejar pelo resto dos meus dias. Eu sou essa ferida aqui dentro, meio cicatrizada, que não sangra, nem pulsa, nem nada. Que só quer você.
Estou ouvindo aquela música que soa toda como cada movimento seu em minha direção, lembrando de como comigo você sempre foi muito mais doce do que com qualquer outra pessoa. Exatamente como a canção. A mesma que você cantava pra mim no tapete do seu quarto, com a rouquidão que sempre amei e amo, com a mesma doçura com a qual você escrevia atrás das embalagens de cigarro qualquer frase boba pra que eu guardasse e lesse mais tarde, pra que me lembrasse de você e talvez me animasse, quem sabe. A última delas, naquele bar pertinho de casa, dobrando a esquina: eu queria consertar você. As lágrimas escapuliram pra fora (como elas sempre fazem quando estou ao seu lado, e só quando estou ao seu lado, como se tudo só fosse seguro quando você está por perto) descumprindo minha ordem de se manterem escondidas porque eu não queria contrariar a sua vontade de me ver sorrir, e não queria te dar o trabalho de limpar meus olhos borrados nem de se preocupar à toa.
Era só pra te fazer um carinho, e agora você tá chorando de novo. 
Eu ouço você dizer, ainda mais rouco com a neblina e o sereno das quase três da manhã. Como explicar que se não consigo conter o choro é por tristeza em saber que teu desejo não pode ser realizado? Você e essa mania de tentar me amparar a qualquer custo. Eu sinto toda aquela fragilidade de cristal pendulando no ar de novo. E tudo é muito pior agora. Exatamente pior agora porque a essa altura eu já descobri que nem você nem nada pode me salvar. Não há como fazê-lo e por isso você não vai me desculpar. Você não vai se desculpar. Mesmo que eu prometa guardar todas as frases rabiscadas nos versos das caixas de cigarro. Mesmo que eu me lembre de todas as canções, de todos os conselhos e de todas as vezes em que você me guardou num abraço.
Eu fecho os olhos como que pra checar pela última vez se já não há mesmo chance alguma de que ainda exista algo de bom em mim, de que eu possa ainda talvez me fazer feliz, pra então te fazer feliz.
E dessa vez não é o amor que escorrega por entre nossos dedos. Dessa vez não há beleza nas palavras, nem romantismo na tristeza das embalagens de cigarro. Só há você, desejando que pudesse me consertar. E eu, sabendo que não sou algo que se possa consertar.
E nós, escorregando.

domingo, 21 de abril de 2013

Morrerei calada




Morrerei calada. Lenta de suave, quieta; rápida de sem mais transtornos. Morrerei em vão, e ninguém ouvirá o último respirar, o último pulsar, o último momento. Ninguém presenciará os últimos passos no corredor nem o vento discreto que corre entre os móveis de uma sala. Ninguém perceberia a sutiliza de deixar de ser.
Morrerei de minha própria desgraça, a mesma em que caio neste mesmo instante, no auge de minha juventude. Da minha desgraça para minha paz, sem testemunhas; vítima de minha própria doença, doença que a mim causei, doença que explodiu no mesmo instante em que expulsei a mim mesma de dentro do ventre daquela menina a mim tão estranha.
Desaparecerei sem deixar rastros, e quando procurarem, tudo o que encontrarão serão vestígios de uma vida que não foi minha, de um amor que não fui eu quem fiz, pois, se, ainda em vida, nenhum deles se mostra capaz de sentir o que sou, tampouco compreenderão o que digo quando estiver calada para sempre. Mais calada do que em vida.

Para sempre. 

Mas não procurarão, e portanto, não acharão. Não se lembrarão, como não se lembraram antes.
Morrerei e seguirei em direção a meu merecido descanso, descanso do sentir e da loucura. Quieta, lenta, precoce. Como quem foge por desespero de saber o que está por vir, o que se esconde na velhice, na invalidez e exaustão da alma, o que está por trás do fim.
Morrerei para mostrar o quão certa estive sobre a morte. Mostrarei como, quando se trata dela, não há o que temer. Morrerei e comprovarei o que escrevi em vida por tanto tempo, aquilo de que alguns duvidaram e me julgaram dramática por acreditar: todo ser humano é só.
Tudo se trata de solidão, e a morte se trata da confirmação de todas essas coisas. 
Se em vida fui só, é por isto também que morrerei.

Quieta, lenta e precoce.
   

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

11/01

Estou pensando que és diferente, o que, para mim, romântica que sou – e com este termo refiro-me à minha inclinação para idealizadora incorrigível – é uma das coisas mais perigosas. E falo-te por nada além de experiência.
Pensarei assim, até que cometas tua primeira omissão, quiçá tua primeira inverdade – se é que já não as fez e só irei eu descobrir com o passar do tempo que nos trará a maldita intimidade – e será para mim catastrófico – para dizer-te o mínimo – desfazer a bela imagem que minha mente, irremediavelmente imaginativa, criou de ti. Por acaso não alertei a ti desde o princípio sobre quão difícil é minh'alma? Não seria diferentemente difícil arrancar-me as ideias uma vez já enraizadas em minha cabeça, nem tão fácil seria explicar às taquicardias que invadem-me e encharcam-me as artérias por conta das emoções associadas a tais ideias que me deixassem, pois já não existem mais ideias e o que ficará de ti será somente o que é real.
Não poderei a ti atribuir culpa alguma, vez que, como de costume, fui eu a responsável por toda esta confusão! Fui eu a querer-te primeiro por atribuir-te a missão de ser completamente incomum entre os demais cavalheiros, ou desejei-te e, por isso, atribuí a ti tal missão: e o que importa a ordem quando tudo se trata de imaginação? Pois são os que vivem da realidade os que preocupam-se com os números, com as ordens, as ciências e com a lógica! A mim não importa nada se não minha própria tristeza e dor.
Perdoe-me, nobre cavalheiro. Não foi por segundo algum minha intenção fazer-te perder teu precioso tempo com minhas ladainhas infelizes.
Perdoe-me e esqueça-me, pois nesse mundo onde, paradoxalmente, a realidade reina embora a mentira predomine, já nem existo mais. Perdoe-me, cavalheiro, que nada disso é para mim.
Perdoe-me se fujo por saber que, se fico, tudo só se tornará pior, alargando-me a dor que carrego no peito e que, compreenda, já não é lá muito modesta.
Oh, quão abominável és tu, querida realidade.

sábado, 2 de julho de 2011

Slipping away

"Você tem que deixar essas coisas irem embora, sabe. Só deixa pra lá..." É bonitinho você olhando pro nada, franzindo a testa ao falar da vida como se entendesse muito, em meio aos seus dezenove e pouco de experiência. Se não faz que entende, é porque diz qualquer coisa só pra me amparar. O que é igualmente bonitinho, como tudo que vem de você. Me dá tanta paz só em você mexendo no violão; tanta paz o tapete do teu quarto; e você nem faz idéia do quão alto me leva essa rouquidão na tua voz. Nesses momentos em que só existe o nosso mundo é que eu percebo o quanto você me faz bem. E eu gosto do que a gente tem aqui, mesmo não sabendo o nome. E eu adoro essa sensação de nós sermos tão facilmente extintos como bolhinhas de sabão no ar; essa fragilidade de cristal pendulando entre nós dois; esse espaço tão grande que existe entre o lugar onde eu me deito e o lugar onde você senta pra tocar uma música, esse espaço grande que tudo o que pede é pra ser preenchido. Você nota as lágrimas chegando, mas nem se esforça mais em tentar entender o que eu tenho já que sabe que eu sou cheia desse drama. Mas dessa vez eu não choro só pelas dores que guardo e que só liberto na sua frente. Dessa vez tudo se mistura à descoberta repentina de que talvez eu te goste mais do que o gostar de dar umas risadas e soltar uns desabafos pra você; e talvez eu te queira mais do que uma tarde no final de semana pra colocar os papos em dia e suspeitar sobre a vida. Eu pensei em te dizer todas essas coisas, mas aí eu deixei pra lá. Eu me deixei pra lá e me deixei desaguar enquanto sua rouquidão me alimentava de toda falta que havia em mim, porque por enquanto tava bom assim, em só ouvir você cantar: I'm trying to make it through each day I'm falling apart now in every way I'm finding it harder to get by There's a hole in my heart And I don't know why Now I've come to realize… I'm slipping away.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Vem cá

Vem cá, deita ao meu lado do sofá. Ou por cima de mim. Por que a gente tem que fazer do jeito complicado sempre? Porque quando estamos bem nos enjoamos, nenhum dos dois gosta muito de mel. E é nesse drama que a gente sente alguma coisa, e é assim que a gente mantém isso aqui e vai empurrando pra frente, e aí vai. É uma forma de sentir, a dor, o desespero de perder o outro, é assim que o amor dá as caras. É da decepção nos olhos do outro que a gente faz sangrar o coração só pra, só por um pouquinho de prazer. Só pra sangrar e depois se acolher. Você sempre faz isso, se afasta pra respirar um pouco que é pra a gente não se matar. Como agora, que você ta aí de frente pra janela, esfregando as mãos da testa à cabeça, assanhando o cabelo do jeito que eu gosto. Você tá tão lindo aí, no reflexo do resto da luz do sol que entra, a sombra te cortando em pedacinhos. Meus olhos tão inchados de tanto chorar e eu enxergo borrado por causa de umas gotinhas que não escorrem, mas mesmo sem poder te ver claramente eu sei como você fica lindo na janela. E eu sei como você fica ainda mais lindo do que já é quando eu te odeio. Eu te amo tanto que chega dói no peito. E eu te amo mais porque eu sei que você não vai embora, mesmo quando você diz que vai embora. Ninguém vai embora. Porque a gente ama isso. A gente ama os pedidos de desculpas e como o sexo fica melhor depois. Eu amo eu me fazendo de vítima imitado voz de menina pequena e você enxugando minhas lágrimas, cuidando de mim, fingindo que é porque quer, fingindo que não é porque eu te manipulo bem direito. Eu amo as linhas que se formam na sua testa toda vez que eu te faço preocupado, magoado, confuso ou desesperado. Eu conheço cada uma delas. Eu amo a sua pele branca resplandecendo na luz da janela. Eu amo você dando um tempo de mim pra esfriar a cabeça e a saudade que me dá de você me abandonando jogada no sofá. Porque eu te deixo louco, é o que você diz. Depois você diz que eu sou louca, e é por isso que a gente dá tão certo. Desse jeito torto de gente doida e masoquista. Essa novela que é nós dois e esse amor bandido que é tão bonito quanto você nervosinho na janela.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Há tanta vida lá fora, depois da janela, dobrando a esquina






A sensação de doença. A alergia irritando o nariz. A amargura do café que acabou na boca. A garganta que arranha pra tentar se livrar dos pedacinhos de alguma coisa que parecem estar lá no fundo. Da garganta. Há tanta vida lá fora, depois da janela, dobrando a esquina. Há tanta vida aqui dentro, dessa alma, depois das paredes que criou do lado de dentro, como se as do lado de fora do castelo já não fossem suficientes. Há tanta beleza no espelho agora, e pra quê. Pra um mundo esquecido e que te esqueceu também. Pra um príncipe que não existe, e que te visita em sonho. Pra uma realidade muito mais crua do que a que se espera ter. Só pra esses sonhos guardados que todo mundo sabe que já estão quebrados, mas continuam guardados porque é só o que se tem pra guardar. Tudo guardado pra vida que ela espera acontecer; pros planos que ela espera acontecer; pro amor que ela espera acontecer; acontece logo, vai. Alguma coisa. Qualquer coisa. E o que acontece é a água, pra tirar o nó da garganta e o gosto velho do café; acontece o banho, pra lavar a doença e a mente; acontece de resolver os problemas instantâneos e voltar pra detrás da janela, pra dentro do castelo, pra continuar a sonhar. E é assim todos os dias. Os dias acontecem, só não acontece vida nos dias.

sábado, 14 de maio de 2011

Could you be the devil, could you be an angel

Então eu olhei nos olhos dele, e foi como uma daquelas coisas que não se deve fazer. Olhos de anjo decaído. Todo o encanto e sedução que eu, como mortal, jamais havia imaginado existir. Não foi como amor, não foi doce. Foi pecado, e eu senti arder em mim fogo quente quase como o do inferno se eu, como mortal, conhecesse tal lugar. Ele ficou parado e não fez sinal algum em minha direção, porém não deixou de me notar em todo aquele transe e todo aquele olhar de fascinação e todos aqueles pensamentos que, eu tenho certeza, ele podia ler. Eu li e reli então o seu corpo por inteiro e eu senti dos desejos o mais arrebatador. Eu olhei nos olhos dele novamente e foi como uma daquelas coisas que não se deve fazer, então com toda a força e manipulação daquele olhar, eu quis, quis por inteiro provar daquela criatura inteira com a minha língua. Eu quis aquele corpo em mim e eu quis que me levasse, me levasse onde quisesse. Eu olhei nos olhos dele e tudo nele podia me controlar completamente. Ele me empedraria se quisesse. Tudo que eu sentia era queimar tudo em mim. Eu notei cada linha daquele corpo e era como se a cada caminho que eu seguisse eu me perdesse mais, só que eu não sentia medo. Aliás, eu era incapaz de sentir coisa alguma. Todo o ar segundos antes disponível já havia sido roubado, desapareceu, e eu quase podia ver asas nascendo por detrás daqueles ombros nus. Eu fotografei visualmente como cada fio de cabelo parecia escorregar perfeitamente sobre aquele rosto pálido, aqueles fios negros, todo aquele contraste e novamente, olhos. Eu quis correr e me lançar em seus braços, mas então eu consegui sentir, e senti medo. Medo que ele desaparecesse no ar, medo que voltasse ao céu ou ao inferno e que dessa forma fosse tirado de mim. E não era amor, era necessidade. Eu não poderia agir como se fosse amor. Eu queria que ele viesse, que ele me dissesse que ficaria, que houvesse forma de fazê-lo meu. Pra sempre meu. Somente meu. Eu queria roubar aqueles olhos pra mim, e as asas para que ele não pudesse partir. E que o fogo que a essa altura já havia tomado meu corpo por inteiro jamais se esgotasse, porque no mundo não havia nada perto disso.
Ele me sorriu de lado e aquilo foi como uma faca afiada no meu coração que pulsava forte e agora sangrava. Deu um passo para trás, e eu queria puxá-lo de volta, mas estava longe. Como eu viveria agora? Como se mostra o céu a alguém e o pede que se contente somente com a Terra novamente? Eu tentei gritar por ele, porém além de não conseguir desprender a voz da minha garganta, eu não sabia como chamá-lo. Eu não sabia se o chamava Lúcifer, ou sonho meu. Eu não sabia quem ele era ou o quê. Eu não sabia se foi só um sonho. Mas ele sumiu.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Oh






Oh, e quem poderá a mim julgar? Pois sim, estou experimentando de tudo, estou buscando qualquer coisa na tentativa cega e louca de preencher esse vazio que me acompanha desde que me entendo por gente.
"Me bata, eu só preciso sentir alguma coisa."
E eu vou assim, amando garotos eternamente por uma noite, partindo ao amanhecer do dia, antes que possa me lembrar de quem são. Antes que sintamos nossas faltas, cada qual. Mas eu sinto todas as faltas. Falta é só o que eu sinto. E eu vou assim, eu deixo pelo medo de ser deixada. Eu não amo pelo medo de não ser amada. Eu me apresso para evitar a dor, eu anulo a já acumulada. Eu me engano, eu me entorpeço, eu tento tudo. Eu engano, faço bem. Mas é sem querer. É necessidade. É necessidade de amar, de amor. E eu sei lá o que é isso! Eu não posso amar. Eu não aprendi. Ninguém me mostrou. Está longe de mim. Fora do alcance. Eu disse ao analista, eu não consigo. Como é que faz? Eu disse a todo mundo que eu não sei, eles acham que é farsa minha, que eu que quero dizer que não, fazer que não, atuação. Oh, se soubessem que eu sou quem mais sofro nessa coisa de contramão do mundo, nessa coisa de não conseguir fazer como o mundo faz. Ah, se soubessem do preço que pago por ter nascido com essa alma tão inquieta e insatisfeita, tão desfeita. Tão tudo. Tão é o problema, seja menos intensa. Mais leve. Menos alguma coisa. Ah, eu não consigo. Eu não consigo tão tudo. Eu só consigo ser eu. E nem isso eu sei bem o que é.
Então é isso: eu tenho tentado de tudo, e quem vai dizer que estou errada? E quem disser que me dê fórmula pronta, e que me ensine como se morre de amor. E que me ensine como sentir. E que me faça logo sentir. E que me prove que estou errada, se nem sabes quem ao menos sou. Mas não se preocupem não que eu vou atrás de diagnóstico, eu vou perguntar ao doutor. Eu vou ver se ele sabe quem eu sou. Enquanto isso eu continuo tentando me encher de alguma coisa. Ou continuo fingindo para mim mesma que o faço. O que mais eu posso fazer?

domingo, 10 de abril de 2011

Still alive

Surpreendeu a si mesma diante da seguinte constatação: estou viva! Dezessete anos e tanto, e é tão pouco ainda. Lhe invadiu a amiga tão pouco íntima, distante felicidade: estou viva. Estou viva e na cara dos meus dezoito anos. Duas idades, uma transição, quatro números, só se tem uma vez. Pensa no seu aniversário, sente que pela primeira vez na vida – depois da infância – seria alegre esse dia. Entenderia o sentido de completar mais um ano de vida, e não de se aproximar cada vez mais do fim – que era a forma como costumava pensar -. Só agora se deu conta de que esses anos são irrecuperáveis. Pensou em um turbilhão de coisas. Só nessa idade os problemas desapareceriam com um simples “foda-se”. Só aqui podíamos nos dar o direito de fazer todas as merdas dignas dessa idade e ao luxo de não fazer direito porra alguma. Pensou nas pessoas que passaram pela sua vida, pensou nas que haviam permanecido. Pensou que as amava pra caralho e que amava o mundo inteiro – ninguém acredita, nem ela, mas amava demais -. Pensou que estava viva e que poderia não estar: quantos não chegam até aqui? “A morte pode estar atrás da porta”, como havia ouvido do professor neste mesmo dia, na aula de literatura. Pensou em como poderia nem ter nascido, em como não deveria, mas, no entanto, estava aqui. Pensou no quanto chorou todos esses anos, ah, não foi pouco! No quanto apanhou da vida, doeu pra caralho. Lembrou que podia estar toda costumarada por dentro, e estava; lembrou dos que lhe fizeram sofrer e pediu que lhes avisassem: “ainda estou viva”. “- Eu poderia nem ter nascido, eu não deveria, mas eu sou teimosa. E filha da puta. Eu sou teimosa e filha da puta. Um brinde aos filhos da puta!” olhava para o céu, se sentia grata, os olhos concordaram, as lágrimas se deitaram. Agradecia:

“- Pela vida,

Deus.

Apenas pela vida.

sábado, 9 de abril de 2011

Sede

Eu não quero a água, a comida, o amor;
Eu quero é o querer.
Meu ânimo reside na busca, na falta, na ânsia,
Na sede.
O saciar me entedia, a solução me atrapalha;
Me delicia a angústia,
Eu quero é o querer.
É do desespero que mantenho viva a angústia do viver.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Quando liga o chuveiro, é quando as lágrimas vêm. E junto das lágrimas, tudo o que ela guarda, tudo o que ela é. E somente sozinha é quando consegue ser. No resto do tempo se esconde, se guarda, se perde dentro de si e ninguém a encontra. Ela perde parte de sua visão esperançosa que vaza pelos olhos, assim como seu entendimento, e o que resta são somente dúvidas – tão solitárias quanto a menina, em sim –. Porque as coisas têm de ser tão duras quando seus desejos são tão simplórios? Pois só queria que alguém chegasse enrolando-a em uma toalha quente, só queria ter alguém. Queria que o alguém dissesse que ficaria tudo bem. Seus desejos me parecem muito simples, nada fora do comum. O que a quebrava no meio era justamente a tal constatação: estou só. Estou? Ou sou? No final, surte o mesmo efeito. Ou não surte nada. É mais falta dele, do efeito. Estar só, ser só. É o que lhe dá força, mas também é o que lhe quebra. Lhe quebra, mas lhe dá força. Por ter que lutar o triplo, por ter que lutar por si, por não ter nada a perder. Tenha medo daqueles que não têm nada a perder, ouvi dizer que são capazes de qualquer coisa. E medo dos que lutam por si só, estes são como animais que, uma vez atiçados na selva, se viram obrigados a se adaptar. Coragem não lhes falta. Medo também não. Mas o medo deles é diferente. É daqueles que impulsiona e que, uma vez sentidos, desperta-se também a vontade de superá-los, a vontade de desafio. E vou dizer-te, essa garota era como um animal selvagem que, desafiada pela vida, se superava todo santo dia. O mundo a cutucava e assim ela aprendeu a responder. Era sim cheia de medo,  se encheu dele à medida em que conheceu os seres humanos – todavia era feita de uma coragem incalculável que parecia jorrar de uma fonte natural, de reserva infinita, de dentro dela. E se precisas de mais, ainda te digo: como toda boa personagem de destaque, não tinha nada a perder. "Eu sou a minha própria armadilha. Eu sou com quem eu devo ter cuidado. O mundo se passa aqui,
dentro de mim."


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quando vale a pena

Sabes quando sabes que valeu a pena? Sabes quando tu te deitas, te pões a relembrar. Te lembras de como choraste, de teu coração ter se encontrado tão apertado. Lembra-te das dúvidas, das esperas incansáveis, da procura por causa do desespero de tê-lo ali. Lembras de querê-lo noite e dia, incessantemente, de estais presa àquele sentimento. Mas lembra-te que o que é angústia, também é o mais saboroso de sentir, entre todos os outros sabores. Então te lembras das boas horas, de não estar só. De risos e risadas e de ir às nuvens ao ouvir certa voz. Pensas no passado, pensas no presente, e se sente satisfeita por ser quem és agora. Por não ter deixado se estagnar, devido ao medo. Por ter jogado o jogo, ter vivido, arriscado. Sabes que valeu a pena quando tens mais coisas boas a te lembrar do que ruins. E, às vezes, mesmo com muitas memórias ruins, talvez ainda tenha valido, nem que seja para te ensinar que não deves mais repetir aquele erro. Vale para te ensinar uma lição que, quem sabe, te guiará durante toda a vida. Vale para aprender. E as boas memórias também ensinam. Tudo ensina, por isso que vale. Vale quando cresces de alma, enquanto ser humano que és. Vale quando, ao fim de relembrar tudo, acabas com um sorriso tranqüilo no rosto. Seja por completude, seja por se dar conta de como a vida é mesmo cínica. De um jeito ou de outro, vale quando sorri aquele sorriso de missão cumprida.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Você pode ser o que quiser ser

A resposta é: talvez. Talvez eu tenha esse azar, ou talvez não. Na vida há sempre cinqüenta por cento de chance para cada alternativa. Eu posso ser nada, ou tudo. E você pode chamar de ilusão da juventude, otimismo, ou o que quer que seja, mas eu fico com o tudo. Porque eu, sinceramente, acredito que você é o que você quer ser. Se pensas pequeno, então pequeno serás. Se desejas o que já foi alcançado, o previsível, então é isso o que terás, e nada além disso. Mas eu não, eu nunca fui uma pessoa normal. Eu nunca desejei o comum. eu sempre me senti como alguém que estava sendo preparada para o mundo, como se eu pertencesse a ele, e a mais nada. Isso porque eu tenho o mundo dentro de mim, nada mais justo que esse mundo inteiro me reconheça, assim como eu o reconheço. Eu quero tudo, eu não gosto de limites. Eu quero conhecer todos os lugares que sempre vi na tv. Eu quero conhecer todas as línguas e sotaques e todo tipo de gente, também. Gente. Eu quero viajar e nunca ter uma rotina sempre igual. Eu não me importo de viver quarenta anos apenas, desde que esses quarenta me pareçam como duzentos. Quero viver tudo o que eu tiver pra viver, ser o que eu quis e nunca o que alguém me obrigou a ser. Fazer o que quis ter feito e não como me ordenaram. Arriscar. Ter histórias pra contar, ter do que me lembrar. Do que me arrepender, do que me orgulhar - apesar de acreditar que arrependimentos só vêm por algo que você deixou escapar, por medo ou por qualquer outro impedimento -. Eu quero ter o que a vida tiver pra me dar... e talvez um pouco mais. Quanto às raízes, acho que a vida tomou parte de me desgarrar de tudo. Se você me perguntasse sobre algo que pudesse me fazer pensar duas vezes antes de ir embora, eu não saberia te dizer. Nada. Nada me prende aqui. Eu tenho sonhos, e não existe nada acima deles.

sábado, 4 de dezembro de 2010

"Idem"

Ele me pediu pra que eu dissesse algo. Eu pensei em muitas coisas. Pensei em dizer que odiava aquelas frase clichês de quando era chegado o fim, tipo: “foi bom enquanto durou” e “eu nunca vou esquecer você”. Tudo o que eu tinha para dizer-lo, disse durante o tempo em que estivemos juntos. Não se fazia necessário nenhum tipo de resumo, desfecho ou “satisfação”. E além do mais, eu odeio despedidas. Odeio qualquer tipo de ritual. Odeio. Então fiquei lá, ouvindo todas aquelas coisas que me pareciam ser ditas por pura conveniência, de tom superficial. E tudo o que eu respondi de volta foi: “idem”. Eu sei que posso ter parecido indiferente, mas eu não consigo ser pela metade. Se eu tivesse que dizer algo pra mostrar como me sentia, teria que narrar todos os meus textos, tudo o que escrevi sobre ele e sobre nós dois durante esses meses. Coisas que ele nem faz idéia de que pensei/senti. E isso já não adiantaria no fim. No final, nada mais importa. A tentativa já tinha sido feita, a chance já havia passado. E às vezes, na vida, nós só temos uma dessa. Uma cartada. Uma última, uma única... A que eu guardei para mim. E talvez tenha sido o melhor a ser feito.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ficarás bem

Eu tenho uma teoria, agora. E aqui vai: se tens um problema que não consegues resolver, então enterre-o. Mas enterre-o no lugar mais profundo dentro de ti. Pra que ele esteja tão bem escondido que, vez em quando, tu possas até sorrir, esquecendo-se de sua existência. Então, guarde-o. Guarde-o até que ele se resolva sozinho. Ou que tu te esqueças dele tempo suficiente para sorrir o tempo inteiro. Ou até que o tempo passe e, sozinho, leve embora o tal problema. Mas se ainda não confias em todos esses meios, ou, se ainda que tentando todos, nenhum deles funcione... Então guarde-o até que alguém do lado de fora venha, até que esse alguém te distraia de todas as coisas. E quando menos esperar, estarás livre de tudo aquilo que, sem solução, escondestes dentro de ti. O que digo é que, de alguma maneira, estarás livre. Ficarás bem.